Trilhas Ecológicas (água, ar, terra e fogo)
Adaptado de: Educação Ambiental, NEAD-UFSJ
Dentro do movimento ambientalista, a metodologia de trilhas interpretativas é muito popular e existe há vários anos. Cada qual com sua característica, umas mais informativas, outras mais formativas, as propostas convergem na imersão humana na natureza (figura 28) no contexto da chamada “Ecologia Profunda”, com intensa evidência dos quatro elementos.
Figura 28. René Magritte: Dentro da floresta
Ainda que Carlos Diegues tenha denunciado o “mito moderno da natureza intocada” (2002), é inegável que o contato com a natureza traz diversos significados. Não há nada de errado nas atividades pejorativamente chamadas de “naturebas”. O problema é que isoladas de um contexto social mais político, dificilmente provocam as mudanças que são pautas da educação ambiental. O ideal, assim, é que as trilhas interpretativas façam parte de um projeto mais denso que abarque a relevância do diálogo entre cultura e natureza.
Curiosamente, as trilhas são usadas como forma de sensibilização e para mediar a relação entre ser humano e natureza. De fato, a modernidade evocou a urbanidade e a tecnologia, tornando o ser humano moderno mais distante de ambientes mais preservados. A cidade foi valorizada em detrimento do meio rural, possível apenas em tela emoldurada na parede, como ironiza o surrealista belga, René Magritte, em sua tela intitulada “por dentro da floresta” (figura 28).
As trilhas propõem uma imersão do ser humano no ambiente natural. Tais atividades se dão, na maioria das vezes, em áreas de florestas, reservas e parques, ou seja, nas chamadas unidades de conservação. Contextualizadas em dimensões sociais, as trilhas ecológicas são excelentes ferramentas de educação ambiental. Devem ser vistas menos como simples passeio descontextualizado ou como uma atividade extra-classe e sim como uma oportunidade para complementar conceitos já desenvolvidos ou ainda por desenvolver, com os sujeitos envolvidos.
“Ferramentas” são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia a dia (...) Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo.”
Rubem Alves em “Sobre Gaiolas e Asas”
Início
As trilhas podem ser realizadas em distintos espaços, e até mesmo na sala de aula. Isso mesmo! Até na sala de aula ou no entorno da escola se pode fazer uma trilha, percebendo os principais fenômenos socioambientais que ocorrem ao nosso redor. Além das trilhas, pode-se fazer passeios em instituições governamentais e não-governamentais, como hortos florestais, zoológicos, parques e espaços de convivência.
Objetivo
Os locais a serem visitados são chamados de espaços ou estruturas educadoras. Ao se trabalhar a educação ambiental, percebemos que o objetivo da aprendizagem não acaba no local, mas apenas o perpassa. A intenção é construir conhecimentos e sentimentos para que a educação ambiental se torne mais interativa, contextualizada na biorregião, despertando o interesse sobre aquele espaço e tantos outros que contribuem com a conservação ambiental e a proteção das espécies vivas.
Discussões
Ao realizar uma trilha em um local de mata, muitos conceitos podem ser trabalhados: desde a importância da biodiversidade, a diferença de temperatura, solo, sequestro de carbono, conservação do meio, capacidade energética, erosão. Enfim, os fenômenos socioambientais podem ser relacionados e trazidos para posterior discussão. A elaboração de, fotos, desenhos e textos referentes às trilhas constitui um recurso importante nessa contextualização.
Uma maneira de se construir confetos (conceitos e afetos) talvez seja a aliança da trilha com a arte. Diversas opções podem desfilar na passarela, como o estímulo em fechar os olhos e sentir a brisa na face, para depois contar essa emoção no coletivo. Ou então, possibilitar a criação de um role play game (RPG), com interpretação teatral no jogo de papéis, simulando situações de impactos ambientais e a mobilização social para propostas da educação ambiental, por exemplo. Podemos realizar oficinas de origami, uma técnica milenar japonesa para criar figuras, por meio da dobradura de papel; ou cuidar vagarosamente de um bonito vaso de ikebana, a arte zen budista de arranjos florais, utilizada pelos monges japoneses para ornamentar os templos com representações da natureza. Obviamente não se trata de um mero arranjo floral estético, mas do cuidado e do respeito milenar pela natureza presentes no acurado valor ético que tece a trama espiritual da civilização humana.
Enfim, outras criações são possíveis, como a discussão de cores, texturas e sentimentos por meio de desenhos ou pinturas, em criações, invenções e reinvenções. A figura 29 foi realizada com pó de pedras durante uma das trilhas, em que se comparava o cenário ideal de árvores com brisas confortantes com o cenário real de árvores mortas em sol causticante, em função da mudança climática.
Figura 29. Professora Emiliana: Pintura com pó de pedra
Escola São José do Couto/MT
Escola São José do Couto/MT
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